domingo, 6 de abril de 2008

Interrogações FM

O rádio seria o mais fabuloso meio de comunicação imaginável na vida pública, um fantástico sistema de canalização”.

Essa frase de Brecht, no texto escrito em 1932, parece prever o advento do rádio como o principal meio de comunicação no mundo, prevalecendo como tal até o surgimento e a consolidação da TV – que hoje, rapidamente, dá espaço à internet e às novas (e nem sempre tão novas) mídias.

Mais do que um olhar futurista sobre o tema, o autor na verdade tece uma crítica à forma como tal meio vinha, na época, sendo utilizado. Tanto que, em seguida, completa: “Isto é, seria se não somente fosse capaz de emitir, como também de receber”.

E é nesse ponto, em específico, que eu queria entrar.

No contexto de uma comunicação que não é mais apenas unilateral (e está aí a internet pra provar essa transformação, além da própria TV Digital, que tanto se falou recentemente) a nossa realidade hoje condiz, em parte, com os anseios do autor, guardadas as ressalvas de que em 1932 ninguém poderia imaginar a transformação pela qual o “nosso” sistema de comunicações ia passar.

Brecht ansiava por uma via dupla de comunicação, empregada no principal meio enxergado por ele, para transformar a vida das pessoas e oferecer uma utilidade pública, prática e menos decorativa para o rádio (e aqui se pode estender para todos os meios de comunicação).
Apesar do rádio não oferecer, ele mesmo, essa possibilidade de interação como se vê na internet ou se espera da TV Digital, vale lembrar que integrando-o ao telefone ou à própria internet já se torna possível estabelecer essa conexão. Em muitos programas, por exemplo, o ouvinte “ganha voz” ligando e sendo posto diretamente no ar, ou durante a leitura de e-mails enviados.

Dentro dessa perspectiva, pode-se afirmar que o rádio realiza os propósitos sugeridos pelo autor?

Acredito que não. Basta lembrar que o controle das maiores rádios do país está nas mãos de um pequeno grupo, que possui interesses bem específicos. Acredito, inclusive, que não esteja incluída nesses interesses a idéia de democratização do meio. O ouvinte posto no ar, na verdade, não emite além de um fragmento de opinião, filtrado e contextualizado dentro de uma discussão previamente tematizada por quem detém o controle do meio. É, portanto, uma opinião que pode ser legítima, mas que de maneira nenhuma caracteriza tal ouvinte como um ator da comunicação. Ele é, no máximo, um coadjuvante do processo.

A partir daqui, é possível traçar um paralelo com o objeto do nosso estudo: as rádios comunitárias. Em que medida o fato delas servirem e terem o propósito de refletir os anseios de uma determinada população influencia na “voz” que essa população tem nesse meio? E mais, dentro de uma análise de comunicação, dá pra considerar esse arranjo como uma forma de comunicação bilateral? Ou a comunicação do rádio se mantém unilateral mesmo que seus autores sejam, ao mesmo tempo (em teoria), o seu público –alvo?

Um comentário:

Pissardo disse...

adorei! ótimo post para começar nossa discussão sobre a democratização do meio rádio. Acho muito bom deixar delimitado que a participação que os ouvintes de hoje tem nas emissoras de rádio, não são uma expressão do processo de democratização da mídia, mas sim um mero aval do consumidor para a rádio poder se afirmar como atenciosa ao ouvinte...